24/01/2014

Apenas uma fé nominal?

Como seres extremamente religiosos que somos, dotados de uma intensa necessidade de Deus, nos é muito fácil a adesão a uma crença religiosa, independente se é certa ou errada, independente da visão de divindade que nos transmite, tampouco se realmente produz evidências de salvação em nós. A necessidade de acreditar e,mais que isso, adorar algo, é inerente ao espírito humano.

A adesão a uma crença religiosa, seja ela qual for, pode parecer, no início, algo extremamente difícil, uma vez que nos propõe uma ruptura com um mundo que,naquele momento, entendemos ser pecaminoso, vil e corrupto (o que não é difícil aceitar...),mas, este mundo vil é aquele que nos apresenta as diversas formas de 'diversão' capazes de satisfazer à nossa carne em nossos desejos, este mundo seria o provedor de todos os nossos desejos. Num determinado momento, quando somos levados a acreditar numa verdade superior, passamos a enxergar este mundo como fruto de uma degradação moral, advinda do afastamento do homem ao Deus Criador, transformado-o numa verdadeira babilônia que nos apresenta diversas formas de satisfação. E, no contato com esta nova verdade superior, rompemos com tudo aquilo que nos trazia deleite e satisfação e 'vestimos a camisa' dessa fé, seja ela qual for, buscando uma remissão capaz de nos livrar de uma condenação eterna, substituindo-a por um paraíso celestial.

O entendimento daquilo que temos dito é perfeitamente aceitável, uma vez que são verdades irrefutáveis, qualquer pessoa, independente do credo que confesse, sabe que isso é a mais pura verdade. No entanto, o que nunca imaginamos é o quão vulneráveis somos em nossas próprias convicções. Antes de aderir a uma nova confissão, temos uma série de conceitos e preconceitos, os quais são cuidadosamente lapidados a fim de tornar-nos verdadeiros prosélitos, livres de toda culpa, mediante a aceitação de uma revelação celestial, e,no momento que abraçamos esta fé tornamos malditas todas as práticas antigas, santificando-nos através de novas práticas que entendemos ser aplicáveis na nova trajetória que escolhemos. Não é possível dizer se estas práticas novas são melhores que as anteriores, não é possível julgá-las comparando-as, uma vez que cada doutrina é formulada segundo seu próprio conceito de divindade, atrelado ao mundo espiritual compreendido por estes. Talvez um determinado religioso, ensinado por sua doutrina, entenda que o seu deus será exaltado se este realizar oferendas que envolvam sacrifício de animais (ou de pessoas?), visto por alguém que não pratica aquela crença, logo será reprovado e tido como prática inaceitável.Mas a fé,ou a nossa fé, nos leva a fazer coisas incompreendidas, nos levar a ser quadrados para o resto do mundo. Afinal, no fim das contas, é melhores ser reprovado por todo o mundo, se isto seja para obter a aceitação do Deus no qual cremos!

Muitas vezes,porém, combinados uma série de fatores alheios à nossa vontade, somos levados a esfriar na confissão que tanto amamos. Não que a abandonemos, apenas não mantemos a mesma atividade, ou fidelidade, naquilo que acreditamos. As situações se nos apresentam, demandando tempo e dedicação a elas, os compromissos, e até mesmo, novos interesses que se mostram conflitantes com nossa fé,entre outras questões, nos afastam daquilo que defendemos. Não que aquele mundo, do qual saímos por entender ser destrutivo, esteja novamente em nosso pensamento ou tenha se tornado alvo de nosso desejo. Apenas as coisas mudam e a mesma disponibilidade para dedicar-se a crença parece não surgir, associado,lógico, a diversas outras questões.

O problema,então, reside no fato de que num determinado momento, sem ao menos percebermos, somos levados à prática de uma fé tão somente nominal, algo que só existe em nossa cabeça, não havendo,em nossas práticas, qualquer expressão daquilo que insistimos que somos ou dizemos acreditar. Paulatinamente abandonamos essa fé, essa crença, mas ainda assim, em nome daquilo que um dia fomos ou praticamos, afirmamos ser o que não mais somos, confessamos uma fé que não é expressa em nós mesmos. A maior dificuldade é aceitar que não estamos de acordo com o estilo de vida no qual aceitamos,voluntariamente, viver. Isso se dá não por uma desilusão religiosa, insisto,mas, por outras questões,'menos espirituais' acredito.Não se trata de uma obsessão demoníaca ou uma atuação de 'encostos malignos', como alguns costumam referir-se aos afastamentos da Igreja, antes, é algo no qual o próprio indivíduo é o responsável por esta escolha voluntária em sair do convívio religioso, passando a viver uma fé 'clandestina'.

Chegando ao ponto onde não somos mais participantes deste convívio religioso, infelizmente há uma certa resistência por parte de alguns daqueles nossos pares com os quais congregávamos. Já não há -na visão destes - qualquer tipo de graça (da graça de Cristo) em nós. Possuímos,em nós mesmos, uma fé viva e capaz de permanecer conosco mesmo em meio a piores tempestades e ventos, mas nada disso é capaz de tornar a nossa escolha respeitável, apesar de confessar o Cristo de Deus, como sendo o Primogênito da Criação, a revelação perfeita de Deus aos homens, mesmo assim, não há o aceite por parte daqueles que compartilham da mesma fé, estes são obviamente mais praticantes, ativistas, os outros, porém, tidos como guerreiros que permitiram a queda do estandarte!

No fim das contas, avaliada toda a nossa situação,vemos que o nosso julgamento, segundo nossa própria consciência, não deve de forma alguma nos condenar, não podemos reprovar-nos diante daquilo que,hoje, somos e cremos. Reiteramos que a fé permanece, o espírito é o mesmo, interiormente o altar ao Deus supremo não foi removido, não foi usurpado, não foi substituído... 

"*E você,nobre leitor, tem na sua fé o combustível que te aperfeiçoa? Você torna-se uma pessoa melhor à medida que permanece em sua caminhada? "

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