21/10/2016

Os evangélicos em quem votamos...

EDITORIAL


Os evangélicos em quem votamos

Nas últimas legislaturas, principalmente em decorrência do aumento da população evangélica no Brasil, associada a candidaturas fortemente vinculadas a igrejas evangélicas, muitos pastores e líderes têm sido eleitos. A concentração daqueles que se elegem se coloca principalmente nas Câmaras de Vereadores, de Deputados Estaduais e de Federais. A estratégia se apresenta claramente nas casas legislativas em detrimento de eleições no Executivo se dá pela importância de manter a defesa de suas ideias. Se,antes, a política era evitada por parte das lideranças evangélicas tradicionais há tempos atrás, hoje a presença dos evangélicos na política é uma necessidade afirmada pela maioria das igrejas e lideranças com a justificativa de manter o pensamento defendido em suas comunidades. Por outro lado, essa ida à política por parte dos evangélicos não se voltou aos membros comuns das igrejas evangélicas, antes, as candidaturas concentram-se nos próprios pastores, bispos, esposas e filhos de pastores, além de demais familiares. Nesse cenário, a eleição destes se torna muito mais fácil justamente por concentrar em si o governo de suas igrejas, o que se torna uma máquina poderosa na hora de angariar votos.

Com um sistema político eleitoral que não favorece a pessoa comum, o que temos é uma eleição daqueles que tem o seu nicho de eleitores. Seja em igrejas, sindicatos, escolas, ONGs, é preciso ao postulante de cargo eletivo manter-se fiel e ativo a fim de manter pelo menos um ponto de partida na sua tentativa de alcançar uma cadeira no Legislativo. Vemos que não bastam boas ideias e uma trajetória ética e boa conduta para ser eleito, muito mais que isso é importante ter um grupo que o apoie em sua empreitada, sempre lembrando que, uma vez eleito, o candidato deverá servir aos interesses deste nicho que o elegeu. Caso, por exemplo, um candidato evangélico seja eleito, obviamente com o apoio de igrejas e pastores, deverá atender aos interesses das igrejas (não necessariamente interesses daqueles que frequentam as igrejas), dos pastores destas igrejas. No caso em questão, deverá o candidato manter-se oposto, por exemplo, a projetos que visam a não isenção da cobrança de IPTU a templos religiosos (de qualquer natureza inclusive), que somente na Cidade de São Paulo chega a R$ 110 milhões por ano (dados da Folha de S.Paulo). Mas, não somente isto, visto que a Constituição Federal, no seu artigo 150, garante a imunidade tributária aos Templos de qualquer Culto. Ou seja, não somente IPTU, mas, ICMS, ISS, IPVA, IRRF, etc.

No exemplo que temos dado, fica claro que há uma controvérsia muito grande visto que não há no texto da Lei qualquer dispositivo que obrigue a contrapartida social destes Templos religiosos no caso da imunidade tributária. E, no caso do parlamentar evangélico, a questão da justiça tributária, que tanto se fala atualmente, não será levada em consideração pois terá de beneficiar seu nicho, aqueles que cederam seus templos para sua eleição, sob pena de ser repudiado e tido como traidor. Percebemos que quando nosso sistema eleitoral permite que grupos ditem os rumos das nossas Leis, travamos o benefício da coletividade. Isso ocorre em todos os outros setores, não somente igrejas! Quando um sindicato elege um parlamentar, ele trabalha no sentido de beneficiar aqueles que o elegeram, seja sendo contrário a plano de metas da administração pública a seus servidores, ou aumento de percentual de contribuição previdenciária, ou benefícios de qualquer natureza. O corporativismo retratado nas representações legislativas mantém um estado imutável de benefícios e classes superiores em detrimento da maioria da sociedade brasileira; essa maioria é quem pagará, manterá e compensará as perdas causadas ao Estado por estas castas superiores, esse é um exemplo que agrava ainda mais as desigualdades sociais, das quais ainda estamos longe de minimizar.

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Ninguém deve confundir a participação evangélica na política com o simples interesse em manter e expandir benefícios, mas, estamos longe obviamente de um atendimento aos eleitores com a moral evangélica, ou seja, não devemos esperar que o candidato evangélico (ou de qualquer outro segmento) atenderá a população comum, antes, observará o interesse das lideranças, mantendo o poder dos pastores no atendimento de suas demandas. 

Logo, imaginar que a sociedade será beneficiada com a eleição deste ou daquele indicado por igreja, sindicato, escola, etc. e este trabalhará para o benefício da sociedade, isto é um engano! Tais pessoas atenderão os interesses daqueles grupos que o apoiaram, o eleitor terá um papel secundário, cabendo apenas o voto direcionado por estes grupos, não sendo atendido por aqueles que ajudou a eleger.



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