01/02/2013

Depressão [Subsídio aula 5 ]


A depressão é desesperadora, mas nem sempre é doença.

Pesquisas indicam que a depressão é um dos distúrbios psiquiátricos mais freqüentes no Brasil e no mundo. As pessoas que buscam ajuda em psicoterapia, na maioria, o fazem por estarem deprimidas ou por acharem que estão deprimidas. Como se não bastassem o mal-estar e a angústia tão freqüentes nas depressões, em geral o deprimido não encontra aceitação em seus familiares. Ao contrário, estes se apressam a encaminhá-lo logo para um médico que vá receitar algum remédio, acreditando que dessa forma o desconforto de conviver com alguém que enfrenta uma depressão seja eliminado. No entanto, a mesma medicação que pode ajudar, se não for ministrada adequadamente, em conjunto com a ajuda psicoterapêutica competente e amorosa, em que a pessoa pode reavaliar sua própria vida e se sentir apoiada, só fará com que se empurre com a barriga a conscientização dos motivos que podem causar os desajustes depressivos. Pior foi verificar que muitas vezes no meio religioso, principalmente no evangélico, além de não existir o acolhimento tão necessário à pessoa em depressão, ainda ela vai ser acusada de não crer, de estar em pecado. Como se isso não bastasse, não raras vezes o deprimido ainda será

exorcizado, como se o próprio demônio estivesse incorporado nele. Tudo isso coopera ainda mais para que a pessoa aumente sua condenação, a depreciação de si mesma e a dificuldade em se acolher num momento tão dolorido.

Li várias vezes, meditei e refleti sobre os altos e baixos emocionais na vida de vários personagens bíblicos: Davi e sua depressão; a tristeza profunda na vida de Jó, que amaldiçoa o dia de seu nascimento, lamentando ter recebido os cuidados específicos que todo recém-nascido precisa; os momentos depressivos na vida de Moisés, que questiona, discute com Deus e se nega a continuar com o peso de cuidar do povo insatisfeito no deserto; Elias , o profeta, que fica tão deprimido que deixa de comer e deseja morrer, e vi que Deus não repreendeu as pessoas, não as julgou nem as condenou! Ao contrário, segundo relato bíblico, foi paciente e cuidou amorosamente para que cada uma delas pudesse encontrar alívio e forças para retomar o próprio caminho. Descobri ainda que Cristo, também passou por momentos de profunda tristeza. E foi paciente e amoroso com cada pessoa que conviveu com ele, nos momentos de tristeza, choro, desânimo, decepção e desconfiança, ajudando a cada uma a se recuperar e a retomar a normalidade da vida emocional.
Essas descobertas trouxeram um impacto tão grande em minha vida que tive vontade de sair gritando num alto-falante de tamanho gigantesco, a alcançar o mundo, que a depressão é desesperadora, mas na maioria das vezes não é doença. E está dentro de uma reação normal do ser humano diante de dificuldades e momentos difíceis na vida! E que há também tesouros infindáveis nos processos depressivos; que a pessoa que passa por uma depressão precisa, acima de tudo, de compreensão empática e de acolhimento amoroso! 

(...)

Tirando proveito da depressão

Estou aqui, no topo de uma das montanhas da cidade de Campos do Jordão. Aproveitando o fim do ano de 2006, tirei uns dias de férias dos atendimentos no consultório para concluir este livro. Daqui de onde estou sentada, diante do meu computador portátil, posso ver vários tons de verde e muitas flores; bem aqui, na minha janela, há uma floreira de madeira com Impatiens multicoloridas, e volta e meia aparece um beija-flor, dando um encanto para este lugar que enche meu coração de êxtase.
Estar em meio a tanto verde e belezas naturais, como é o caso aqui — ar puro, silêncio, sossego, céu azul e limpíssimo, com a ausência total de poluição e muito sol —, torna difícil acreditar que neste momento existem milhões de pessoas que só enxergam um cinzento tenebroso em tudo ao seu redor, simplesmente porque estão deprimidas. No entanto, sei, com certeza, que se eu já não tivesse experimentado todo o peso da melancolia e da tristeza que penetra até o fundo da alma, prostrando a mais valente das pessoas na face da Terra, não perceberia a beleza esplêndida existente em cada detalhe da natureza, no reino animal e na dinâmica humana. É o escuro da noite que prepara o coração para receber o brilho do sol da manhã! A vida só é bela e venturosa se a vivermos com toda a intensidade, se vivermos tanto o belo e prazeroso como o feio e dolorido.
O maior proveito que podemos tirar dos processos depressivos é este: quando entramos e caminhamos em nossa noite escura, depois do vale tenebroso, sairemos do outro lado; lá, seremos aquecidos com o calor de um sol acolhedor.
Sabendo que a tristeza depressiva faz parte das reações às perdas no desenrolar da vida...
... que, quando ela aparece, em geral é um aviso de que a vida que tínhamos até o momento precisa de transformação...
... ou que precisamos nos adaptar à nova situação...
... ou ainda que precisamos de alguém que nos dê mais cuidado e atenção...
... sabendo ainda que todos nós a teremos um dia, em maior ou menor grau...
... que os personagens bíblicos, que hoje temos como exemplo, passaram por crises depressivas e depressões agudas...
... que até Cristo se entristeceu profundamente, sentindo o gosto da morte na sua tristeza...
... que o penetrar no escuro tenebroso do mundo dolorido da depressão poderá acrescentar riquezas e tesouros indescritíveis à nossa alma e vivência...
... que chorar é um bom remédio para desatar nossos nós emocionais...
... que é legítimo e permitido nos encolhermos, por um tempo, e ficarmos conosco mesmos, assumindo diante dos amigos, parentes e família que estamos entristecidos...
... que, além da ajuda dos médicos e dos psicólogos, nas situações insuportáveis podemos recorrer à medicação...
... que existem pessoas que sabem nos ouvir empaticamente, acolher, compreender e nos tocar com carinho quando estamos deprimidos...
... que Deus não condena nem recrimina o entristecido, mas socorre e supre o coração abatido e sem vigor...
... sabendo de tudo isso, então, tenhamos a certeza de que somos normais e a esperança de que o Pai cuidadoso muda “o [nosso] pranto em dança, a [nossa] veste de lamento em veste de alegria”.
Texto de Esther Cerrenho ,Fonte: xa.yimg.com

Ads


Compartilhe!